Por todos os livros que você não terminou de ler.
Por todas as bandas que você não ouviu.
Por todos os filmes que você não foi assistir.
Por todas as vezes em que você matou a academia.
Por todos os dias em que o sofá e o notebook foram o maior prazer da sua casa.
Por todos os conselhos dos seus pais, que você não seguiu.
Por todos os parques que você deixou de visitar.
Pelas dietas de segunda-feira, abandonadas na terça.
Por todos os lugares pros quais você não viajou.
Por todos os garçons e camaradas de bar que você não conheceu.
Por todas as fotografias que você não revelou.
Por todo o tempo lendo e-mails inúteis.
Por todos os amigos de internet que você nunca chegou a conhecer.
Pela luz da lua, trocada pelas luzes coloridas das festas.
Pelo sol de cada manhã, batendo na sua janela fechada.
Pelos dias trocados pelas noites.
Pelas noites em claro...
A amarga lembrança de quem você nunca foi.
09 agosto, 2012
19 julho, 2012
Trocas
As ondas do rádio já denunciavam o que ele sabia faz um tempo. Ele estava envelhecendo. Tinha trocado a badalagem de musicas eletronicas, as batidas, os riffs, os solos de rock pelo blues e pelo jazz. As paredes de sala, iluminadas pelo azul-tv pareciam mais confortáveis do que aquela cerveja com os amigos até tarde da noite. O café solitário das 18h, melhor que aquele restaurante caro e aquela batata (que ele tinha quase certeza que não era batata dessas de feira). O livro do topo da cama, aquele todo empoeirado que ele nunca tinha tocado já tinha um marca-página confortavelmente assentado na pagina 134. Ficar no computador até tarde, pra quem virava noites à fio, atualizando a mesma página, dando voltas entre e-mail, uma ou duas redes sociais e entre a luz laranja que acendia na barra de tarefas, para ele já era uma inutilidade sem precedentes.
O tempo passou. As coisas passaram. E mudaram. Ele nem percebeu direito. O que ele tinha percebido é que daquela frequência frenética, ele já tinha cansado. "Eu fiz muita coisa correndo, sem pensar direito, sem ver o que e com quem eu tinha feito". Hoje, a vontade de pouco fazer ou não fazer nada o tem cativado muito mais do que ser um "altamente-produtivo" sem causa. E ele realmente não sabe se isso é bom ou ruim. Os pesquisadores de universidades norte-americanas com certeza classificariam sua procrastinação como algo que provavelmente poderia balear seu coração por depressão e sobrepeso num prazo de 5, 10 anos. Eles mesmos dizem que a predisposição dos jovens à infartar por causa disso tem aumentado consideravelmente. Mas tudo bem, pelo menos ele sabia que ter deixado de lado aquela biblioteca de música tão barulhenta tem melhorado a sua audição. Se fez bem pro ouvido, deve chegar no coração também.
24 janeiro, 2012
Guerras Particulares
Eu cruzo com os caminhos de milhares de pessoas por dia. A pé, no ônibus, no carro, sempre dá pra ver como as pessoas vem e vão, descontroladamente, para muitos lugares e para fazer muitas coisas, ou coisa alguma. Eu, como já comentei aqui outras vezes, acho que aqui vive muita gente. Pois bem, imagine cada pessoa dessa indo pra algum lugar, fazer qualquer coisa. Qual é o plano dessas pessoas? Enriquecer, prosperar, ter bens materiais, status ou apenas a vontade simples de fazer alguma coisa produtiva, não sei. Cada um tem os seus motivos.
Não precisamos pensar muito pra ver que vivemos num cenário um tanto quanto normal, um tanto quanto perturbador. Você anda na rua, acompanhado ou sozinho, você pode até estar se sentindo feliz, mesmo sem saber o porque, até o momento em que você vira a esquina e vê alguém jogado no rodapé de uma parede, coberta com aquela inconfundível manta cinza e suja, tentando se proteger do frio, ou da chuva ou até dos outros. Um outro exemplo, você está com o seu filho no banco de trás do carro quando para no semáforo e é abordado por uma criança vendendo alguma coisa.
Nesse cenário, você tem três atitudes esperadas: Lamentar, fingir que não viu ou ajudar. A segunda é, disparada, a mais utilizada: Ignoramos.
Estamos preocupados demais tentando travar uma guerra contra os nossos próprios medos e inseguranças. Mas não é um crime correr atrás dos sonhos. Mas os sonhos dos outros não tem valor ou espaço compartilhado nos nossos próprios sonhos. Cada um luta pelo seu.
Você lutou tanto na sua vida, acumulou horas de trabalho, tirou férias, trabalhou pelos outros, ou deixou os outros trabalharem pra você. Nem percebeu que o seu senso de realidade tirou férias quase que definitivas de você. Sua conta no banco engorda, você arruma alguém, seus amigos parecem mais próximos, seu ego infla e sua felicidade se condiciona à isso. Você ganha a batalha. Mas se uma dessas coisas se inverte, aos poucos, o resto também se inverte e vai perdendo o sentido. Você perde a guerra. E acaba, espiritualmente ou literalmente, como o sujeito do rodapé ou desorientado como aquela criança do semáforo.
Assim, você deixa de lado a sua guerra particular por uma estranha sensação de felicidade e começa a fazer parte da guerra conjunta por sobrevivência. Você nem precisa chegar num estado extremo pra sentir, mas a gente sempre sabe quando estamos vivendo ou quando estamos apenas sobrevivendo.
Não precisamos pensar muito pra ver que vivemos num cenário um tanto quanto normal, um tanto quanto perturbador. Você anda na rua, acompanhado ou sozinho, você pode até estar se sentindo feliz, mesmo sem saber o porque, até o momento em que você vira a esquina e vê alguém jogado no rodapé de uma parede, coberta com aquela inconfundível manta cinza e suja, tentando se proteger do frio, ou da chuva ou até dos outros. Um outro exemplo, você está com o seu filho no banco de trás do carro quando para no semáforo e é abordado por uma criança vendendo alguma coisa.
Nesse cenário, você tem três atitudes esperadas: Lamentar, fingir que não viu ou ajudar. A segunda é, disparada, a mais utilizada: Ignoramos.
Estamos preocupados demais tentando travar uma guerra contra os nossos próprios medos e inseguranças. Mas não é um crime correr atrás dos sonhos. Mas os sonhos dos outros não tem valor ou espaço compartilhado nos nossos próprios sonhos. Cada um luta pelo seu.
Você lutou tanto na sua vida, acumulou horas de trabalho, tirou férias, trabalhou pelos outros, ou deixou os outros trabalharem pra você. Nem percebeu que o seu senso de realidade tirou férias quase que definitivas de você. Sua conta no banco engorda, você arruma alguém, seus amigos parecem mais próximos, seu ego infla e sua felicidade se condiciona à isso. Você ganha a batalha. Mas se uma dessas coisas se inverte, aos poucos, o resto também se inverte e vai perdendo o sentido. Você perde a guerra. E acaba, espiritualmente ou literalmente, como o sujeito do rodapé ou desorientado como aquela criança do semáforo.
Assim, você deixa de lado a sua guerra particular por uma estranha sensação de felicidade e começa a fazer parte da guerra conjunta por sobrevivência. Você nem precisa chegar num estado extremo pra sentir, mas a gente sempre sabe quando estamos vivendo ou quando estamos apenas sobrevivendo.
05 julho, 2011
Como foi seu dia?
Ele sentou num banco, naquela mesma praça onde sempre se sentava, naqueles finais de tarde frios de inverno, respirou fundo e se apoiou sobre os braços à beira do banco. Ajustou o volume do rádio de bolso, ouvindo os comentaristas repetindo à voz grossa as notícias do dia e puxou o 10º cigarro do bolso, vendo o movimento dos carros e das pessoas que passavam em frente à ele.
Olhou os carros, passando rápido ou parando repentinamente, um atrás do outro, arranhando marchas, buzinando insistentemente para aquele carro que morreu após o fim do vermelho no semáforo. As pessoas indo e vindo, cada uma com o seu "ir e vir" diário, com várias coisas na cabeça, andando sem olhar para os lados, talvez nem para a frente. Via que as pessoas não se olhavam, não se cumprimentavam. Se uma esbarrava em outra, as cabeças se movimentavam ligeiramente e um "desculpe" saia entre dentes. A pressa, falta de educação ou outra coisa que fugia do senso de convívio que ele tinha atrapalhava a convivência das pessoas.
"E daí?", pensou. Tantas vezes já andou daquele jeito, correndo pra lugar nenhum, atrasado para nada. Quem era ele pra ficar achando defeito nesse tipo de coisa. Ele sabia que a correria era necessária, todo mundo precisa de dinheiro. Sabia também que ficar nervoso por coisas cotidianas era opcional, mas que podia acontecer e que não precisava se crucificar se acontecesse com ele. "Amanhã melhora"
Mas ele tinha que passar por isso várias vezes por semana. Queria dinheiro, ostentação, status. Julgou como justo o preço que pagava para "ter" as coisas que queria.
Via aquelas coisas todos os dias, depois de um dia estressante baseado em e-mails, ligações, cobranças e outras coisas que insistiam em testar a paciência dele, todos os dias e chegou a pensar se aquilo era realmente necessário. Acumular riquezas, objetos... estresse e preocupações. Mediu os lados: De um lado a necessidade de viver, do outro lado, o consumo da capacidade dele de ser humano de verdade, além dos aspectos que a vida cotidiana cobra. Pontualidade, atender prazos e metas, comprar presentes, satisfazer mimos, pagar contas, fazer dívidas, cobrar dívidas. Ir dormir pensando no vencimento do cartão, no cliente que ficou esperando uma resposta, no carro novo que queria comprar, na promoção... muitas vezes deixando de lado a mulher que poderia estar esperando um achego ou abertura para conversa do marido, depois de um dia estressante de trabalho e rotinas na mesma proporção ou deixando de lado a filha ainda acordada, esperando o abrir da porta durante a noite, vendo a silhueta do pai adentrando o quarto e sentir os lábios um tanto quanto gélidos do pai sobre a sua testa.
O primordial havia fugido por entre os dedos dele, como água. Esqueceu o porquê de se estressar tanto, de receber tanto esporro de chefe, de ter que atender tantos clientes chatos e reuniões de negócios. Naquele dia, antes de girar a chave dentro do trinco da porta do apartamento, se acometeu por um "senso de realidade" e teve plena consciência do porque daquilo tudo. E não era o carro novo, os ternos, os empregos, os salários, as contas, os presentes. Não era "ele" o porquê.
De fato, preocupou-se em achar um meio-termo nessa história. Seria mesmo o equilíbrio entre as partes que iria trazer as riquezas e o sossego que qualquer ser humano normal anseia? Existe mesmo um meio-termo?
As respostas para essas perguntas ele não tinha. Sabia que não podia parar de fazer o que fazia por instinto de sobrevivência, mas sentiu um fisgar no peito quando tomou consciência do que estava abrindo mão para "ter" o que queria. Seu estilo de vida, atarefado e estressante cobrava um preço que há tempos se tornara alto demais pra ele pagar.
Já de noite, entrou em casa, entrou no quarto da filha e, vendo que ela já dormia, deixou um bombom ao lado do despertador. Entrou no quarto, deu um beijo na mulher, ajeitou-se na cama e, folgando o nó da gravata, perguntou:
"Como foi seu dia, amor?"
Olhou os carros, passando rápido ou parando repentinamente, um atrás do outro, arranhando marchas, buzinando insistentemente para aquele carro que morreu após o fim do vermelho no semáforo. As pessoas indo e vindo, cada uma com o seu "ir e vir" diário, com várias coisas na cabeça, andando sem olhar para os lados, talvez nem para a frente. Via que as pessoas não se olhavam, não se cumprimentavam. Se uma esbarrava em outra, as cabeças se movimentavam ligeiramente e um "desculpe" saia entre dentes. A pressa, falta de educação ou outra coisa que fugia do senso de convívio que ele tinha atrapalhava a convivência das pessoas.
"E daí?", pensou. Tantas vezes já andou daquele jeito, correndo pra lugar nenhum, atrasado para nada. Quem era ele pra ficar achando defeito nesse tipo de coisa. Ele sabia que a correria era necessária, todo mundo precisa de dinheiro. Sabia também que ficar nervoso por coisas cotidianas era opcional, mas que podia acontecer e que não precisava se crucificar se acontecesse com ele. "Amanhã melhora"
Mas ele tinha que passar por isso várias vezes por semana. Queria dinheiro, ostentação, status. Julgou como justo o preço que pagava para "ter" as coisas que queria.
Via aquelas coisas todos os dias, depois de um dia estressante baseado em e-mails, ligações, cobranças e outras coisas que insistiam em testar a paciência dele, todos os dias e chegou a pensar se aquilo era realmente necessário. Acumular riquezas, objetos... estresse e preocupações. Mediu os lados: De um lado a necessidade de viver, do outro lado, o consumo da capacidade dele de ser humano de verdade, além dos aspectos que a vida cotidiana cobra. Pontualidade, atender prazos e metas, comprar presentes, satisfazer mimos, pagar contas, fazer dívidas, cobrar dívidas. Ir dormir pensando no vencimento do cartão, no cliente que ficou esperando uma resposta, no carro novo que queria comprar, na promoção... muitas vezes deixando de lado a mulher que poderia estar esperando um achego ou abertura para conversa do marido, depois de um dia estressante de trabalho e rotinas na mesma proporção ou deixando de lado a filha ainda acordada, esperando o abrir da porta durante a noite, vendo a silhueta do pai adentrando o quarto e sentir os lábios um tanto quanto gélidos do pai sobre a sua testa.
O primordial havia fugido por entre os dedos dele, como água. Esqueceu o porquê de se estressar tanto, de receber tanto esporro de chefe, de ter que atender tantos clientes chatos e reuniões de negócios. Naquele dia, antes de girar a chave dentro do trinco da porta do apartamento, se acometeu por um "senso de realidade" e teve plena consciência do porque daquilo tudo. E não era o carro novo, os ternos, os empregos, os salários, as contas, os presentes. Não era "ele" o porquê.
De fato, preocupou-se em achar um meio-termo nessa história. Seria mesmo o equilíbrio entre as partes que iria trazer as riquezas e o sossego que qualquer ser humano normal anseia? Existe mesmo um meio-termo?
As respostas para essas perguntas ele não tinha. Sabia que não podia parar de fazer o que fazia por instinto de sobrevivência, mas sentiu um fisgar no peito quando tomou consciência do que estava abrindo mão para "ter" o que queria. Seu estilo de vida, atarefado e estressante cobrava um preço que há tempos se tornara alto demais pra ele pagar.
Já de noite, entrou em casa, entrou no quarto da filha e, vendo que ela já dormia, deixou um bombom ao lado do despertador. Entrou no quarto, deu um beijo na mulher, ajeitou-se na cama e, folgando o nó da gravata, perguntou:
"Como foi seu dia, amor?"
23 março, 2011
Alto-mar
Ele queria sumir por um tempo. Esquecer, nem que fosse por curtos cinco minutos do que é, pra que e pra quem vive e pra onde tinha que ir. Queria perder a mania tola de querer saber tudo, de ficar perguntando e duvidando. Cético! Queria ter mais fé pra acreditar que as coisas podem ser (e são) mais fáceis.
Queria sair. Andar por aí sem nada na cabeça, sem destino, sem prestar atenção em nada e sem hora pra voltar.
Confuso, suas perguntas chamavam outras muitas perguntas. Sua vida confundia-se num mar de Interrogações e Reticências. Às vezes batia de frente consigo mesmo, numa colisão insana de idéias, pensamentos, desejos. Sempre um contra o outro, numa briga contra si mesmo. Briga interna que há tempos tentava apartar.
Não tinha entendido o porquê dela ter saído do carro tão espontaneamente naquela noite. Mal recordava o motivo da nova-velha briga, que já se arrastava por quarteirões desde quando ele a pegou, pontualmente, às 22:00 em sua casa. Mas a batida da porta estremeceu seu subconsciente. Fez-se uma tempestade no mar de interrogações e reticências. Conseguiu vê-la pegando o primeiro ônibus que passou pela esquina, pensou em segui-lo, mas também não sabia se devia ou não. "Talvez não valha tanto a pena... ou vale?"
Engatou a ré, manobrou o carro para o sentido contrário, quase batendo no carro estacionado na contra-mão e voltou para casa.
Não sabia o que ia acontecer naquela noite, não sabia se tudo havia terminado. Procurou não pensar muito nisso. Ligou a cafeteira, puxou uma cadeira e ficou olhando o pingar da bebida quente no frasco de vidro. A cada gota, uma pergunta que não havia sido respondida vinha a sua mente, uma questão não resolvida. A cada gota vinha uma incerteza, uma dúvida.
Sentiu o pulso disparar e de repente o ar ficou curto. Sentiu raiva, levantou, passou as mãos na cabeça e num movimento desajeitado, pegou a cadeira a atirou contra a parede.
Teve vontade de abandonar tudo, por os pingos nos "Is' por conta própria. Precisava resgatar aquilo que era. Precisava abandonar os questionamentos e começar a viver sem procurar respostas.
Quando estava quase ciente da sua decisão, sentiu o telefone vibrar dentro do bolso: Era ela.
Ainda ofegante, atendeu:
- Oi, não deveria ter me comportado daquele jeito, saindo do carro sem dar explicações, mas você me irritou. Te peço desculpas.
Respirou fundo e após um leve pigarreio, respondeu:
- Tudo bem, venha pegar suas coisas que estão comigo amanhã após as 14:00.
Desligou o celular, deixando-o sobre a mesa, pegou a chave do carro e saiu, sem destino.
Queria sair. Andar por aí sem nada na cabeça, sem destino, sem prestar atenção em nada e sem hora pra voltar.
Confuso, suas perguntas chamavam outras muitas perguntas. Sua vida confundia-se num mar de Interrogações e Reticências. Às vezes batia de frente consigo mesmo, numa colisão insana de idéias, pensamentos, desejos. Sempre um contra o outro, numa briga contra si mesmo. Briga interna que há tempos tentava apartar.
Não tinha entendido o porquê dela ter saído do carro tão espontaneamente naquela noite. Mal recordava o motivo da nova-velha briga, que já se arrastava por quarteirões desde quando ele a pegou, pontualmente, às 22:00 em sua casa. Mas a batida da porta estremeceu seu subconsciente. Fez-se uma tempestade no mar de interrogações e reticências. Conseguiu vê-la pegando o primeiro ônibus que passou pela esquina, pensou em segui-lo, mas também não sabia se devia ou não. "Talvez não valha tanto a pena... ou vale?"
Engatou a ré, manobrou o carro para o sentido contrário, quase batendo no carro estacionado na contra-mão e voltou para casa.
Não sabia o que ia acontecer naquela noite, não sabia se tudo havia terminado. Procurou não pensar muito nisso. Ligou a cafeteira, puxou uma cadeira e ficou olhando o pingar da bebida quente no frasco de vidro. A cada gota, uma pergunta que não havia sido respondida vinha a sua mente, uma questão não resolvida. A cada gota vinha uma incerteza, uma dúvida.
Sentiu o pulso disparar e de repente o ar ficou curto. Sentiu raiva, levantou, passou as mãos na cabeça e num movimento desajeitado, pegou a cadeira a atirou contra a parede.
Teve vontade de abandonar tudo, por os pingos nos "Is' por conta própria. Precisava resgatar aquilo que era. Precisava abandonar os questionamentos e começar a viver sem procurar respostas.
Quando estava quase ciente da sua decisão, sentiu o telefone vibrar dentro do bolso: Era ela.
Ainda ofegante, atendeu:
- Oi, não deveria ter me comportado daquele jeito, saindo do carro sem dar explicações, mas você me irritou. Te peço desculpas.
Respirou fundo e após um leve pigarreio, respondeu:
- Tudo bem, venha pegar suas coisas que estão comigo amanhã após as 14:00.
Desligou o celular, deixando-o sobre a mesa, pegou a chave do carro e saiu, sem destino.
30 janeiro, 2011
Procura-se
Nesse final de semana, achei algo que há muito tempo vinha procurando, mas sem sucesso. Foi na simplicidade do sol nascente batendo atrás de uma montanha e lançando um vermelho-com-rosa claro no céu, a calmaria do mar e algum tempo, mesmo que sejam cinco minutos, sozinho que eu acabei encontrando.
Pensei na loucura do dia-a-dia, na correria, nos problemas, nos telefonemas, nos e-mails. Pensei no martirio que é viver numa grande cidade, aonde você não pode parar.
Como poderia ficar tanto tempo longe disso, nessa procura?
Olhei para o céu, naquele tom de vermelho-com-rosa claro, deixei o corpo boiar sobre o mar que mal se mexia.
E realmente percebi que havia encontrado.
Encontrei o nada.
Pensei na loucura do dia-a-dia, na correria, nos problemas, nos telefonemas, nos e-mails. Pensei no martirio que é viver numa grande cidade, aonde você não pode parar.
Como poderia ficar tanto tempo longe disso, nessa procura?
Olhei para o céu, naquele tom de vermelho-com-rosa claro, deixei o corpo boiar sobre o mar que mal se mexia.
E realmente percebi que havia encontrado.
Encontrei o nada.
12 janeiro, 2011
Persona
Somos seres humanos. Somos a única espécie com o poder de pensar, imaginar, perceber sentimentos. Somos a espécie que consegue se recriar todos os dias. Criamos um conceito todo particular da vida e como leva-lá.
Não, não, hoje não vou falar de como você leva a sua vida, até mesmo porquê venho pensando muito sobre como levo a minha própria vida de uns tempos pra cá. Mas dos papéis que assumimos durante esse "processo" que chamamos de viver.
Vivemos acreditando que somos independentes, que somos aquele diamante polido em meio à um lamaçal. Acreditamos que somos o ser imune, livre de culpa. Acreditamos que temos o poder de controlar o mundo, o nosso mundo, o mundo de outra pessoa. Eu ainda vou descobrir porquê nos achamos especiais, quando na verdade não somos. Deve ser aquele tão falado ego.
E quando acontece alguma coisa? Aí nos vemos com aquele pensamento de "Ah, por que isso foi acontecer comigo?! Eu sou tão certinho! Não faço nada de errado! Aqui fazemos o papel de inocentes ou de "ultima bolacha do pacote".
E quando decidimos ficar com raiva do mundo? Inventamos desculpa esfarrapada pra descontar a raiva no primeiro que vier pela frente. "O mundo é uma desgraça, esse lugar é injusto, desumano, sem sentido" Aqui, fazemos o papel de vítima.
Há muitos outros muitos papeis que são protagonizados, dia após dia nesse teatro. Papeis que não fazem sentido. Aliás, nada faz sentido aqui. Talvez não deva ter sentido mesmo. Usamos máscaras que escondem o que realmente sentimos e o que somos. Muitos ainda não sabem o que ou quem são.
Mas há uma coisa que pulsa dentro de você, um frenesi que te empurra pra frente, te levanta toda manhã e tira o seu sono de noite, dizendo que você tem que viver, ou sobreviver. De alguma forma, não importa qual: você tem que ser algúem, mesmo que você não goste do que vai se tornar. Esses papeis que vivenciamos mostram esse desejo pulsante pela "auto-afirmação". Mostram o nosso desejo de provar para o mundo que estamos vivos.
Só não nos damos conta de que o tão falado Mundo não existe! O que existe mesmo é aquele mundo que existe dentro da gente. A parte de nós aonde ninguém mexe, ninguém sente, ninguém julga e ninguém vê nada. Aonde as mascaras caem. É esse mundo que molda o "mundo" que existe lá fora. Porém, somos capazes de viver fora dele tentando provar algo pra alguém e esquecemos de provar algo para nós mesmos.
Viver para ser rico, ter cobiça, bens materiais, status, ser magro, atlético... ou deixar o ator coadjuvante sair de cena para se encontrar com o real protagonista dessa história?
Escolha bem. Uma decisão sábia fará todo o resto lhe ser adicionado com o tempo.
Não, não, hoje não vou falar de como você leva a sua vida, até mesmo porquê venho pensando muito sobre como levo a minha própria vida de uns tempos pra cá. Mas dos papéis que assumimos durante esse "processo" que chamamos de viver.
Vivemos acreditando que somos independentes, que somos aquele diamante polido em meio à um lamaçal. Acreditamos que somos o ser imune, livre de culpa. Acreditamos que temos o poder de controlar o mundo, o nosso mundo, o mundo de outra pessoa. Eu ainda vou descobrir porquê nos achamos especiais, quando na verdade não somos. Deve ser aquele tão falado ego.
E quando acontece alguma coisa? Aí nos vemos com aquele pensamento de "Ah, por que isso foi acontecer comigo?! Eu sou tão certinho! Não faço nada de errado! Aqui fazemos o papel de inocentes ou de "ultima bolacha do pacote".
E quando decidimos ficar com raiva do mundo? Inventamos desculpa esfarrapada pra descontar a raiva no primeiro que vier pela frente. "O mundo é uma desgraça, esse lugar é injusto, desumano, sem sentido" Aqui, fazemos o papel de vítima.
Há muitos outros muitos papeis que são protagonizados, dia após dia nesse teatro. Papeis que não fazem sentido. Aliás, nada faz sentido aqui. Talvez não deva ter sentido mesmo. Usamos máscaras que escondem o que realmente sentimos e o que somos. Muitos ainda não sabem o que ou quem são.
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| Qual você vai usar hoje? |
Mas há uma coisa que pulsa dentro de você, um frenesi que te empurra pra frente, te levanta toda manhã e tira o seu sono de noite, dizendo que você tem que viver, ou sobreviver. De alguma forma, não importa qual: você tem que ser algúem, mesmo que você não goste do que vai se tornar. Esses papeis que vivenciamos mostram esse desejo pulsante pela "auto-afirmação". Mostram o nosso desejo de provar para o mundo que estamos vivos.
Só não nos damos conta de que o tão falado Mundo não existe! O que existe mesmo é aquele mundo que existe dentro da gente. A parte de nós aonde ninguém mexe, ninguém sente, ninguém julga e ninguém vê nada. Aonde as mascaras caem. É esse mundo que molda o "mundo" que existe lá fora. Porém, somos capazes de viver fora dele tentando provar algo pra alguém e esquecemos de provar algo para nós mesmos.
Viver para ser rico, ter cobiça, bens materiais, status, ser magro, atlético... ou deixar o ator coadjuvante sair de cena para se encontrar com o real protagonista dessa história?
Escolha bem. Uma decisão sábia fará todo o resto lhe ser adicionado com o tempo.
04 janeiro, 2011
Você não se permite
Você não se permite mais andar sem destino, não se permite mais sentir o frio que sobe pelas pernas ao andar do pé descalço no chão gelado, não se permite mais sentir o vento bater no seu rosto e balançar aquela mecha do seu cabelo que, teimosa, dança na sua testa, não se permite mais sentir o arrepiar da pele, o suspiro profundo, sincero, com razão. Você não se permite experimentar algo novo sem medo de se arrepender, se machucar, sem medo de viver. Você não se permite mais chorar, deixar a tristeza dominar o recôndito da sua alma, lugar aonde você mesmo talvez nunca tenha ido e sentir o desgosto da dúvida, da incerteza, do não saber no que vai dar. Não se permite sentir se assim pelo menos um dia na sua vida.
Você se permite andar por onde não quer, sentir o gosto ruim da culpa por não ser quem você queria ser, prefere sentir-se numa embriaguez mental e iludir-se com coisas mundanas. Você se permite viver com o que é velho, se limita só às coisas que conhece e ao seu mundo fechado, criou padrões e segue-os a risca e sabe que não sabe o porquê disso tudo. Permite-se chorar por motivos tão vagos, sentir-se responsável como uma pessoa de trinta, quarenta, cinquenta anos e pula fases da sua vida que implora, grita dentro de si, clamando por atenção.
Permite-se viver nesse marasmo e comodismo louco que costuma chamar de vida.
28 novembro, 2010
Contador de Estrelas
Subiu de volta ao quarto. Não mais imerso naqueles pensamentos ruins que insistiam em martelar sua consciência, desligou o rádio, apagou a luz e abriu a janela. Viu o céu escuro, aberto, com tantas estrelas, mas tantas estrelas que se sentiu em outro lugar no espaço, em outra dimensão, em um universo paralelo, um universo só dele. Imaginou se haveria outros como ele em outras constelações, já que um ponto minúsculo no céu, visto daqui, pode ocultar um planeta semelhante a esse, com outros seres, talvez até iguais à nós.
Perguntou-se se havia outros com os mesmos sonhos, pensamentos, ilusões, anseios, tristezas e alegrias que ele tinha. Perguntou-se se os outros "Eus" também cometiam os mesmos erros e acertos que ele, um dia, cometeu.
Sentou-se à beira da janela, sentiu a brisa noturna acariciar suas bochechas e balançar uma mecha do cabelo que deslizava, teimosa, na sua testa. "O que os outros "Eus" estão fazendo agora?" Perguntou à si mesmo, num tom irônico, tentando achar alguém pra compartilhar aquelas coisas.
Deitou-se em sua cama com a janela entreaberta, ainda enxergando algumas estrelas naquele céu límpido. Suspirou forte, virou-se para o lado e, rindo, disse:
"Nenhum "Eu" é mais importante do "Eu" que existe aqui dentro"
25 novembro, 2010
Quem eu sou?
De repente olhou-se no espelho e não teve certeza do que viu. Pode ter se perguntado: "Quem eu sou?". Pode ter percebido que viveu a vida no modo automático, seguiu o modelo lógico de estudar-ganhar dinheiro e agora não sê vê mais fora disso. Abriu a janela e viu a luz do luar invadir e tomar o quarto escuro aonde todos os dias se deitava e aonde aquela pergunta fatídica teimava em assolar os seus pensamentos: "Quem eu sou?". Perguntou-se se a dança da vida arrumou um bom par para ele. Questionou seu próprio modo de ver o mundo e descobriu que quase nunca esteve certo. Percebeu que nesse tempo todo foi manipulado por um Monstro Invisível que o dizia pra onde ir, com quem ter amizades e com o que rir e chorar. Sentiu-se num teatro de fantoches. Enquanto isso a luz da lua perguntava: "Quem é você?"
Perguntou-se se poderia tomar outro caminho, preferir o branco ao invés do preto, a luz ao invés das trevas à exemplo daquelas trevas aonde se encontrava naquele momento, observando as nuvens passarem na frente da lua e ver o quarto escurecer e clarear, quase imperceptivelmente.
“Quem eu sou?”
Levantou-se, foi ao banheiro e lavou o rosto. Olhou no espelho e em seus olhos e disse: "Talvez não precise ser alguém"
21 novembro, 2010
Aprendeu que...
...aprendeu com essas coisas a importância de valorizar à si mesmo. Aprendeu a importância de cada amanhecer e anoitecer. Aprendeu a importância de um dia após o outro dia. Aprendeu que não é o mesmo de ontem e nem será o mesmo amanhã. Aprendeu que o seu “sofrimento” pode ocultar uma enorme vontade de viver e experimentar coisas e que esse sofrimento é inútil comparado à quem mora na rua e a próxima refeição é incerta. Aprendeu com isso que talvez ele cobre muito de si mesmo e faça muito pouco. Descobriu que tem tudo ao seu redor e ainda reclama como um bebê chorão. Aprendeu que não dá pra viver baseado em frases prontas.
Mas acima de tudo, descobriu que não pode viver a vida de outra pessoa. Que tem que descobrir a verdadeira essência do seu ser. E que ainda é muito novo pra pensar nessas coisas. Se viu no auge dos seus 19 anos com crise de meia-idade, ora pois! Descobriu que ainda tem um chão longo pela frente, ou não, pois descobriu que a morte não escolhe suas vítimas à dedo. Sabe que, querendo ou não, muitas pessoas vão entrar e sair da vida dele, talvez algumas fiquem, outras não... não cabe à ele fazer julgamento a essas coisas. Pois nem ele mesmo decide o próprio destino. Cabe à ele viver a vida, do jeito que ela vier, sem guardar ressentimentos, mágoas, ódio e tristezas sobre ninguém.
Escrever uma página nova no livro da vida, todos os dias, até que ele chegue na sua última página.
26 setembro, 2010
Damião
Pro inferno com a opinião dos mais velhos, mas cá entre nós, rotina de jovem não é fácil: Acordar cedo e sempre atrasado, sair de casa sem comer, as vezes, agüentar ônibus lotado, gente chata e chefe mala-sem-alça no trabalho, emendar a faculdade depois de um dia inteiro de trabalho, chegar em casa e ter que ir estudar, dormir só após à 01:00 é uma tarefa diária heróica. Ontem mesmo um amigo meu me disse que uma senhora cedeu para ele o lugar reservado para ela, pois ele demostrava um cansaço anormal, típico nosso. E ainda dizem que somos preguiçosos. E, como sacanagem do destino, viver sem dinheiro só ajuda a piorar essa história.
Uma das pessoas que me ajudam a agüentar essa rotina é o Damião. O Damião é o senhor de alguns 55 anos de idade, com os cabelos predominantemente grisalhos e que serve café na empresa. Ele introduziu (UI!) um novo vício na minha vida: a Cafeína. Todo dia quando ele passa pela “minha” sala, deixa uma xícara e dois copinhos plásticos pequenos com café em cima da minha mesa. Ele deve passar umas quatro ou cinco vezes por aqui, nunca parei pra contar. As vezes ele acomoda a bandeja com as xícaras sobre a minha mesa e abre a persiana da janela, fica por alguns minutos contemplando a paisagem urbana e conversando comigo:
- “Paulinho, a Chácara lá ta quase pronta, coloquei uns ladrilhos no jardim e na entrada da porta, ficou bonito. Final de semana teve um churrasco lá, passei o final de semana inteiro relaxando por lá. E o seu final de semana, como foi?”
Além do café (que me ajuda a não entrar em coma por causa da privação de sono), ter uma pessoa convivendo com você, que vem na sua mesa pra conversar e não pra pedir coisas e favores, me faz sentir prazer acordar cedo e passar por todos os perrengues pra chegar aqui na hora. O café e o convívio com ele servem como recompensa por tudo isso. Ele me ensina, dia após dia, a ser uma pessoa mais humilde, a dar valor para as coisas simples e a parar de reclamar de tudo e de todos por besteiras.
A maioria das pessoas que vem na “minha” sala tem o seguinte diálogo:
“Oi Paulo, tudo bem? Que bom... então, [pedido, favor, reclamação, xingamento, crítica].”
Um colega de trabalho meu, quando alguém diz isso pra ele, corta a fala da pessoa e diz logo:
- Prossiga!
Mas isso é história pra contar depois.
21 setembro, 2010
Tudo no lugar
Antes de tudo, não sei. Não sei se é viagem minha ou só mais uma coisa delirante, de muitas que eu escrevo aqui, mas sabe quando você acorda de manhã e já se sente bem? Você abre a janela e vê o céu daquele jeito, daquela cor que você sempre gostou, da cor que você via quando saia na rua pra brincar, já é um bom motivo pra começar bem o dia. Todo dia quando eu acordo de manhã cedo, a primeira coisa que eu faço é abrir a janela do meu quarto e colocar a cabeça pra fora dela pra ser ofuscado pela luz do sol, que já brilha forte naquela hora. Fico ali por uns cinco, dez minutos, olhando as coisas e o vento à bater na arvoré em frente a minha casa. É uma bobagem, eu sei. Mas de alguma forma isso me faz sentir grato por estar ali pra ver essas coisas. E quando eu saio pra ir pro escritório, tudo está daquele jeito que me faz lembrar das coisas que eu vivi quando era moleque. E de noite eu repito o mesmo ritual: Antes de dormir, abro a janela e fico olhando à noite, a lua, que já repousa elegante no céu.
Tudo está como deveria estar. Talvez eu esteja no lugar, apesar de tudo.
Tudo está como deveria estar. Talvez eu esteja no lugar, apesar de tudo.
13 setembro, 2010
Nem tudo é como a gente quer?
Quantas vezes já não ficamos irritados por uma coisa não ter dado certo? Quantas vezes não ficamos frustrados por perder o horário para ir trabalhar, quando chove, quando faz sol demais, por esquecer alguma coisa em casa, por esquecer de fazer alguma coisa, por não ter tempo pra nós mesmos?
Uma pergunta que eu sempre faço pra mim mesmo é como chegamos nesse estado, onde tudo que fazemos parece não nos agradar da forma que deveria. Somos insatisfeitos por natureza, por adaptação, e um sintoma básico disso é reclamar de tudo e de todos.
Mesmo que essa coisa seja explendorosa, fantásica, sempre parece que ainda está faltando alguma coisa, um pequeno detalhe que passa despercebido, coisa essa que sempre nos deixa desconfiado e com uma preocupação latente.
Não me lembro da última vez que fiquei extremamente irritado com alguém ou alguma coisa. A raiva é como uma válvula de escape que deixa sair tudo de ruim que temos dentro de nós e, as vezes, a nossa raiva é a satisfação de outra pessoa.
Percebem, caras pálidas: essa é a lógica das coisas: Se esta bom pra mim, está ruim pra você e está horrível pra outrem. Essa coisa de estabelecer um padrão comum de vivência, de pensamentos, de religiôes não dá certo, nunca deu. O problema é o mesmo que eu já venho pensando à algum tempo: Aqui vive muita gente! Não saiu o último Censo ainda, mas devemos ser mais de 190 milhoes: Mais de 190 milhoes de opiniões, mais de 190 milhoes de jeitos de fazer a mesma coisa, de achar o que esta certo, errado, e do que esta errado, certo.
De fato, engolimos sapos e mordemos lábios frustrados todo dia, mesmo que inconscientemente. Exemplo: olhe pra onde você está... você queria estar nesse lugar? Você queria ir para o próximo lugar que você vai após este? Aonde você queria estar agora? Sozinho ou com alguém?
Eu queria estar em algum lugar fotografando coisas como essa:
| To levando mesmo essa história de fotógrafo à sério... |
Vivemos um padrão básico de vivência social que exige que tenhamos escolaridade, que exige que trabalhemos 8 horas por dia e que tenhamos dinheiro, muito, se possível. O ruim disso tudo é que discordamos da intensidade desse modo de vida, mas seguimos a regra por instinto de sobrevivência. Quem não queria trabalhar 2 dias na semana e folgar os outros 5? Esse modo de vida cria pessoas estressadas e quase sempre chateadas por não saberem direito aonde querem e onde vão chegar com toda essa loucura. A frustração pelas coisas corriqueiras esconde essa incerteza.
Mas o que, de fato, você quer?
08 setembro, 2010
O dia em que voltei de férias
Acabou a moleza. Depois de "curtos" 30 dias cá estou, de volta a rotina maçante de escritório: E-mails que chegam, telefone que não para de tocar, usuário irritado, servidor que dá problema, redes sem conectividade, o iPad do presidente que não conecta. É tenso, mas tudo isso me faz sentir mais vivo. Adoro o cheiro de problema pelas manhãs. Eu tenho uma teoria sobre quem trabalha com TI: É uma maldição! Você pensa que sabe tudo, mas não sabe nada.
Eu, sinceramente, saí de férias no dia 08/08 sem saber o que ia fazer. Não tinha planos pra viajar, a maioria dos meus amigos estava trabalhando. Meus planos eram: acordar tarde (muito tarde, algo em torno de 14:30), assistir Big Bang Theory e Friends enquanto me entupia de pipoca e ficava pensando na quantidade de e-mails que ia ter que ler e a fila de chamados crescendo em escala planetária e na falta que eu ia fazer na empresa.
De fato, acordei tarde nesses dias, nos primeiros dias. mas não fiquei vegetando em frente à TV. Uma coisa estranha é que meu celular nunca tocou tanto que nem nessas férias, meus e-mails pessoais nunca ficaram tão interessantes. Achei coisas pra fazer, lugares para ir, conversei mais com amigos novos. Investi tempo e dinheiro no meu hobby (fotografia). Falando em dinheiro, nunca gastei tanto dinheiro como nesse último mês: foi algo em torno de 250 com baladas, 200 com a viagem que eu fiz com os manolos pro litoral... melhor parar de fazer contas. Mas f*da-se, vou ter história pra contar pra minha futura filha (não, ainda não sou pai e, quando for, quero uma menina).
Eu sentia falta de casa. Sair de casa cedo e voltar tarde só pra dormir é complicado. Querendo ou não, um pedaço de você vive (ou costumava viver) naquele lugar. There's no place like home. Lembrei das minhas épocas da escola, na oitava série mais precisamente: Acordava cedo pra ir pra escola e quando era 12:00 eu já estava em casa, almoçando e assitindo televisão com a minha mãe. Dormia até as 15:30 e acordava com os meus amigos batendo no portão da minha casa, ponto de encontro de toda a "galera" naquela época. Sentei no sofá por uns instantes e fiquei contemplando o chão de madeira, imerso naquela corrente de lembranças que parecia não ter fim.
Hoje, 08/09, acordei com aquela clássica "ressaca" de pós-feriado, mas tive coragem de levantar da cama seduzido pelo cheiro de café. Quando cheguei no escritório, todo mundo vinha me perguntar: "Nossa, voltou de férias? Como foi? Viajou? Descansou bastante?" Outros diziam: "Tirou 30 dias de férias? Parecem que foram 6 meses!" Aqui tem gente que não se permite tirar férias, assume tanta responsabilidade que acaba ficando fora de si, respira trabalho e perde o equilíbrio pessoal-profissional. Enfim... não é o meu caso. Ainda não cheguei e nem quero chegar nesse ponto. Não coloco meu trabalho num pedestal.
E já estou contando os dias para as minhas próximas férias... porquê faltam só 364.
That’s all folks and let’s get back to work!
28 agosto, 2010
Eu, fotógrafo
| Só estou olhando... |
Hoje tive que ir pra faculdade pra começar mais um maldito projeto. Acabei usando boa parte do tempo pra fotografar algumas coisas do jardim do campus (fotos que você vai encontrar aqui e aqui)
Criticas, xingamentos, sugestões, trabalhos, dinheiro, cartas de amor... mail me!
3 minutos, meu miojo ficou pronto.
17 agosto, 2010
Prof. Moreira
Um senhor de uns 50 anos de idade denunciados pelos quase dominantes cabelos grisalhos. Sotaque paulista com traços de sotaque nordestino. Orador nato. Estatura baixa, tipo Mario Bros. Essa foi a figura que eu conheci numa sexta-feira passada. O meu professor do CFC estava de folga e ele foi designado para cobrir a folga dele. Coitado, ia sair de férias por dois meses exatamente naquela sexta, ia viajar para algum lugar e estava com medo de perder o voo.
19:00. Ele entrou na sala, escreveu o nome em vermelho no canto do quadro e traçou um risco logo abaixo. Sentou-se. Depois de apresentar-se, desenhou um quadrado na lousa e começou a ensinar o trajeto da prova prática do Detran. O linguajar sério confundia-se com os comentários cômicos bem encaixados. Depois do "quadradro" levantou-se e disse: Página 46 - Placas de Regulamentação e Advertência. Dou 5 minutos pra vocês decorarem as placas pois eu vou fazer chamada oral. Passados os cinco minutos olhou pra mim e disse: Jovem, qual o seu nome? - Paulo disse eu, em seguida. - Fala pra mim a placa A-7B? Pensei um pouco, não tinha certeza de qual era: - Intersecção à Direita? - Não, respondeu ele.
Assim foi com o resto da sala. Sempre educado, perguntando o nome e procurando interagir com as pessoas, sem piadinhas infâmes. Calmo como uma águia esperando a presa. Após mais algumas placas, começou a dar a aula de Mecânica. Finalizou a aula bem mais cedo e liberou todo mundo.
Apesar da reclamação conjunta pelo método de ensino dele(aula de mecânica + público predominantemente feminino: faça suas contas) algo me chamou a atenção naquele senhor: Simplicidade. Sim, Paulo, agora como explicar uma pessoa simples? Não sei... estou à alguns dias tentando escrever alguma coisa sobre esse figura que não se vê todos os dias. Aliás, foi o primeiro. Figura semelhante eu devo ter encontrado no Cursinho da Poli ou em algum livro do Dr. Dráuzio Varella, mas não me lembro agora.
"Simplicidade é uma coisa complexa".
Eu sei, eu só o vi naquele dia. Sei lá onde raios aquele cara deve estar! Toda aquela tranquilidade que ele tinha, toda aquela calma. De alguma forma passou algo bom pra mim. Por exemplo, dentre os meus defeitos estão a maldita da ansiedade (que, aliada à cafeína me deixa hiperativo). Nunca parei pra pensar no que eu estava fazendo, só fazia. Mas pelo curto contato com o Professor Moreira, de alguma forma aprendi a ter um pouco mais de calma e paciência pra resolver os meus problemas.
Enxergar seus erros é o primeiro passo para corrigí-los. - Alguém já deve ter dito isso, com outras palavras.
Tem gente que contagia pelo jeito de ser, que contamina o ambiente com coisas boas. Não precisa dar lição de moral e esporro nos outros, nem tratar com indiferenca. Devem existir pessoas assim aos montes. O problema é que exergamos primeiramente os defeitos de uma pessoa que acabamos de conhecer, ao invés de perceber traços que demonstrem como essa pessoa pode fazer bem para você. Somos repulsivos e praticamos a repulsa com os outros por natureza, hábito.
Existem outras coisas em mim que eu ainda não consegui descobrir, outros defeitos meus e outras qualidades dos outros. Por que nem tudo é só VOCÊ. Mas vamos ver quem o acaso coloca na nossa frente e como podemos nos tornar pessoas melhores, para os outros e para nós mesmos.
That's All Folks!
19:00. Ele entrou na sala, escreveu o nome em vermelho no canto do quadro e traçou um risco logo abaixo. Sentou-se. Depois de apresentar-se, desenhou um quadrado na lousa e começou a ensinar o trajeto da prova prática do Detran. O linguajar sério confundia-se com os comentários cômicos bem encaixados. Depois do "quadradro" levantou-se e disse: Página 46 - Placas de Regulamentação e Advertência. Dou 5 minutos pra vocês decorarem as placas pois eu vou fazer chamada oral. Passados os cinco minutos olhou pra mim e disse: Jovem, qual o seu nome? - Paulo disse eu, em seguida. - Fala pra mim a placa A-7B? Pensei um pouco, não tinha certeza de qual era: - Intersecção à Direita? - Não, respondeu ele.
Assim foi com o resto da sala. Sempre educado, perguntando o nome e procurando interagir com as pessoas, sem piadinhas infâmes. Calmo como uma águia esperando a presa. Após mais algumas placas, começou a dar a aula de Mecânica. Finalizou a aula bem mais cedo e liberou todo mundo.
Apesar da reclamação conjunta pelo método de ensino dele(aula de mecânica + público predominantemente feminino: faça suas contas) algo me chamou a atenção naquele senhor: Simplicidade. Sim, Paulo, agora como explicar uma pessoa simples? Não sei... estou à alguns dias tentando escrever alguma coisa sobre esse figura que não se vê todos os dias. Aliás, foi o primeiro. Figura semelhante eu devo ter encontrado no Cursinho da Poli ou em algum livro do Dr. Dráuzio Varella, mas não me lembro agora.
"Simplicidade é uma coisa complexa".
Eu sei, eu só o vi naquele dia. Sei lá onde raios aquele cara deve estar! Toda aquela tranquilidade que ele tinha, toda aquela calma. De alguma forma passou algo bom pra mim. Por exemplo, dentre os meus defeitos estão a maldita da ansiedade (que, aliada à cafeína me deixa hiperativo). Nunca parei pra pensar no que eu estava fazendo, só fazia. Mas pelo curto contato com o Professor Moreira, de alguma forma aprendi a ter um pouco mais de calma e paciência pra resolver os meus problemas.
Enxergar seus erros é o primeiro passo para corrigí-los. - Alguém já deve ter dito isso, com outras palavras.
Tem gente que contagia pelo jeito de ser, que contamina o ambiente com coisas boas. Não precisa dar lição de moral e esporro nos outros, nem tratar com indiferenca. Devem existir pessoas assim aos montes. O problema é que exergamos primeiramente os defeitos de uma pessoa que acabamos de conhecer, ao invés de perceber traços que demonstrem como essa pessoa pode fazer bem para você. Somos repulsivos e praticamos a repulsa com os outros por natureza, hábito.
Existem outras coisas em mim que eu ainda não consegui descobrir, outros defeitos meus e outras qualidades dos outros. Por que nem tudo é só VOCÊ. Mas vamos ver quem o acaso coloca na nossa frente e como podemos nos tornar pessoas melhores, para os outros e para nós mesmos.
That's All Folks!
15 agosto, 2010
Um Tempo Atrás
Eu nunca tive muitos amigos. Alguns deles se perderam nas esquinas e contratempos da vida. De fato, não sei o que acotenceu com a Mariana, uma das minhas primeiras amigas de verdade. Conheci ela ainda quando fazia o prézinho na EMEI aqui perto da minha casa. Lembro de algumas poucas coisas que faziamos juntos. Íamos para o recreio juntos, sentávamos bem próximos na sala. Também consigo lembrar de uma excursão que tivemos para um sítio em não-sei-aonde. Já na primeira série, tinha o Willian, um gordinho branquelo, meio nerd, mas que sempre fazia trabalhos comigo. Acho que o único amigo que eu tinha na época (digamos que eu não era muito sociável). Depois de um tempo, veio a galerinha que brincava comigo na hora do recreio (quarta série). Leandro, os três Rafaéis e mais alguns que eu não lembro. Dois desses Rafaéis já não sei mais aonde andam, más linguas dizem que um se envolveu com drogas e outro se perdeu no caminho da marginalidade. No Ensino Médio, já tem um publico mais amplo, mas não mais próximos. Algumas 10 pessoas à mais, mas que mesmo assim mantinhamos amizade só pelo contato na escola, mas não pelo interesse. Quando eu terminei a escola, posso contar algo em torno de 7 pessoas que ainda "andam comigo".
Hoje estava colando algumas fotos e bilhetes de alguns amigos meus no meu guarda roupa e fiquei pensando nessas coisas. Onde será que estão todas essas pessoas? Pessoas que estiveram tão próximas de mim um dia e hoje, bem... sabe se lá onde estão, o que fazem, aonde moram, se estão, vivos. Há um tempo atrás, compartilhávamos conversas das quais nem me lembro mais, brincadeiras das quais eu não dou mais risada quando vejo crianças na rua à brincar das mesmas coisas que, um dia, eu brinquei.
Não, não e não! Não vou dizer que gosto de crianças! Nem a ingênuidade delas me contagia. A unica coisa que eu acho interessante é o interesse delas pelas coisas que acontecem no mundo: Interesse Nenhum! Elas não precisam se importar com essas coisas, com guerra, com paz, com o preço da soja nos mercados estrangeiros. Ainda estão descobrindo todo esse mundo novo.
Não é mais assim. Virou um problema que agora tomou dimensões maiores. Vemos crianças querendo ser "Teens" aos montes, a TV alimenta isso, a música alimenta isso... tudo alimenta isso. Brincar na rua já não é mais coisa de crianças de 12, 13 anos. Na minha rua isso já é coisa do passado. Meninas querem vestir calças apertadas e Soutien para chamar a atenção e meninos já querem dirigir.
Quando eu era criança, passava as manhãs na escola e ficava em casa de tarde pois minha mãe trabalhava e não me deixava sair. À noite então, nem se fale. Só pra acompanhar o meu pai que sempre levava o cachorro pra passear enquanto fumava seus dois cigarros Marlboro. Ficava em casa então, assistindo todos aqueles desenhos que passavam na Cultura, lia algumas coisas nuns livros que meu pai tinha, amontoados no rack da sala e ouvia as músicas da estante de CDs num estéreozão Sony que tinha aqui em casa. Gostava daquilo. Me fez ser quem eu sou hoje, à exemplo dos meus pais.
Minha curiosidade é saber se todas essas pessoas que um dia estiveram presentes no meu cotidiano tiveram uma infância igual a minha, se aproveitaram como eu aproveitei todo aquele tempo livre e sem responsabilidades. Naquela época, não perguntávamos essas coisas: "Ah, o que você gosta de fazer?". Acho que nem interesse em saber eu tinha.
Sim, julgue-me tosco por querer ficar revirando o passado. Sorte a minha ter um passado pra revirar... tanta gente não teve ou quer esquecer o que teve. Too bad!
Hoje estava colando algumas fotos e bilhetes de alguns amigos meus no meu guarda roupa e fiquei pensando nessas coisas. Onde será que estão todas essas pessoas? Pessoas que estiveram tão próximas de mim um dia e hoje, bem... sabe se lá onde estão, o que fazem, aonde moram, se estão, vivos. Há um tempo atrás, compartilhávamos conversas das quais nem me lembro mais, brincadeiras das quais eu não dou mais risada quando vejo crianças na rua à brincar das mesmas coisas que, um dia, eu brinquei.
Não, não e não! Não vou dizer que gosto de crianças! Nem a ingênuidade delas me contagia. A unica coisa que eu acho interessante é o interesse delas pelas coisas que acontecem no mundo: Interesse Nenhum! Elas não precisam se importar com essas coisas, com guerra, com paz, com o preço da soja nos mercados estrangeiros. Ainda estão descobrindo todo esse mundo novo.
Não é mais assim. Virou um problema que agora tomou dimensões maiores. Vemos crianças querendo ser "Teens" aos montes, a TV alimenta isso, a música alimenta isso... tudo alimenta isso. Brincar na rua já não é mais coisa de crianças de 12, 13 anos. Na minha rua isso já é coisa do passado. Meninas querem vestir calças apertadas e Soutien para chamar a atenção e meninos já querem dirigir.
Quando eu era criança, passava as manhãs na escola e ficava em casa de tarde pois minha mãe trabalhava e não me deixava sair. À noite então, nem se fale. Só pra acompanhar o meu pai que sempre levava o cachorro pra passear enquanto fumava seus dois cigarros Marlboro. Ficava em casa então, assistindo todos aqueles desenhos que passavam na Cultura, lia algumas coisas nuns livros que meu pai tinha, amontoados no rack da sala e ouvia as músicas da estante de CDs num estéreozão Sony que tinha aqui em casa. Gostava daquilo. Me fez ser quem eu sou hoje, à exemplo dos meus pais.
Minha curiosidade é saber se todas essas pessoas que um dia estiveram presentes no meu cotidiano tiveram uma infância igual a minha, se aproveitaram como eu aproveitei todo aquele tempo livre e sem responsabilidades. Naquela época, não perguntávamos essas coisas: "Ah, o que você gosta de fazer?". Acho que nem interesse em saber eu tinha.
Sim, julgue-me tosco por querer ficar revirando o passado. Sorte a minha ter um passado pra revirar... tanta gente não teve ou quer esquecer o que teve. Too bad!
08 agosto, 2010
Xongas: Carteira de Motorista
Eu estou na alçada da minha Carteira de Motorista. Sinceramente não agüento mais ter que sair e ver o carro da minha mãe mofando na garagem. Me dói saber que eu tenho que pegar Mercedes de 44 lugares todos os dias pra ir pra onde eu quiser, pra trabalhar, pra estudar.
Mas esse drama já já vai acabar. Terminei o CFC nessa sexta-feira e vou agendar a prova teórica na semana que vem. Viva! Mas o caminho até as vias é complicado é cheio de pedregulhos, neblina, cerração e corpos decapitados.
1º Passo: A Auto-Escola
Meu bolso dói até agora. Ô pedacinho de papel caro pra caramba! Quase 1000 reais pra conseguir pegar aqueles 5 cm de papel que vão te dar a liberdade pra tirar rachas na rua, dar cavalinho de pau na esquina da sua rua, colocar som alto, chamar a atenção do bairro inteiro para andar de carro ou moto por onde você quiser. O discurso nas auto-escolas é sempre o mesmo: “Você paga não sei quantos reais, aí nos vamos estar te encaminhando para fazer o pré-cadastro junto ao Detran e logo após vamos estar te encaminhando para fazer o exame médico e psicotécnico.” Gerúndismo come solto e as taxas “simbólicas” das auto-escolas também. Se você vacilar, levam até o seu futuro carro como pagamento. É um investimento de risco. A Auto-escola nunca tem horários que se adaptam à sua rotina, é você que tem que se virar, cara pálida.
2º Passo: o Pré-Cadastro no Detran
Antigamente havia uma unidade do Detran bem próxima a minha casa, na 23 de maio. Alguma alma do mal teve a brilhante idéia de mover essa unidade para a Zona Norte de São Paulo. O motivo do pré-cadastro é uma incógnita. Alguns dizem que serve para a polícia detectar condutores irregulares (gente que deu entrada na auto-escola e já está dirigindo, mesmo sem carteira) e aplicar muita aos meliantes ou suspender o processo de habilitação, mas até agora esse método não foi implementado. Chegando no Detran, é aquele ambiente pior que sala de espera no médico: todo mundo quieto, tenso. Chega a ser mais tenso que a FUVEST. Os fiscais que vão pegar a documentação não são seres humanos, são ditadores. Acho que por pré-requisito para ser um, além de ter passado no concurso, é: Profissões anteriores: Matador de aluguel, agiota, mercenário ou serial killer, além de possuir boas doses de ignorância e falta de educação. Quando eu fui fazer o meu, expulsaram cinco pessoas da sala por uma delas ter atendido o celular que estava no VibraCall. Imagine se não estivesse! Iam mandar efetuar execução sumária de todos na sala. Passei por essa fase sem nenhum ferimento.
3º Passo: O Exame médico e psicotécnico.
Não sou médico, mas me custa a acreditar que esses exames sejam necessários. Quando você chega no consultório, os médicos pedem para você fazer alguns desenhos e comparações entre figuras. É uma coisa que uma criança de 4 anos faz brincando. Meio sem noção. Nossos queridos amigos de branco dizem que é pra confirmar as habilidades cognitivas da pessoa (pra ver se ela não é retardada, se não é burra, melhor dizendo). Abro um espaço para dizer um palavrão: Po*ra! Se a pessoa teve a capacidade de acordar cedo, tomar banho sozinha, identificar o letreiro de um ônibus e acertar o endereço, é claro que ela não é idiota! Estão subestimando nossa inteligência. O ser humano dá dois passos pra frente e dois e meio para trás! O exame médico é o mais rápido: A médica pergunta: - Você está se sentindo bem? - Sim. -Ótimo! Eu só pergunto por força de hábito, você tá até melhor que eu. Vou sair pra tomar um café, tá aqui ó. Aprovado!
4º Passo: CFC
Talvez seja o passo mais maçante por alguns motivos:
São nove aulas de quatro horas/dia. Quanto à isso, até que é normal. Necessário, melhor dizendo.
Você tem que compartilhar sala com algo em torno de sessenta pessoas, não muito interessantes, meio lerdas no raciocínio (o que prova que o exame psicotécnico é falho) e com tendências a comportamentos insólitos (barraqueiras).A matéria é tão fácil que chega a dar sono mas ainda tem gente que sofre pra aprender. Tipos de perguntas durante a aula:
Aluno 1: Professor, o que é pavimento? (Sem comentários)
Aluno2: Professor, se eu andar sem capacete eu sou multado? (Não, imagina... por que te multariam?)
Aluno3: Professor, quanto que é pra "dar o quebra" no exame (propina para aprovação sem avaliação, mais conhecido como jeitinho brasileiro)
Aluno4: Professor, posso colocar aquelas rodas esportivas e aqueles pneus fininhos no meu carro, cortar as molas, colocar um som monstro, trocar a pintura? (Geralmente quem faz essas perguntas são moleques metidos a Vida Loka que tem sonhos de consumo automotivos, mas que de carro, só tem o que aparece no papel de parede do celular com uma mulher em posições que sugerem comportamentos sexuais, ou o que montaram no Need For Speed pra Playstation, ou nem isso).
E os simulados. Sim, os simulados.Você deve acertar 75% da prova (21 questões) para ser aprovado. Nos simulados, pode-se consultar a apostila. Mesmo assim tem gente que acerta 12, 13... como pode? Tem uma questão como essa: “Para se evitar o superaquecimento do motor, deve-se observar no painel de instrumentos qual dos seguintes itens?” Como um ser marca GPS como alternativa correta?
Enfim... ainda tem mais alguns passos pro final dessa empreitada. Eu ainda nem comecei as aulas no volante. Depois eu termino de contar essa Missão Impossível.
Vão dormir, que eu tô de férias!
That’s all Folks!
31 julho, 2010
Gente que reclama demais
Eu não condeno as leis do Estado. Até que não entende nada de política sabe que, pra manter a ordem entre a população, é necessário criar regras, padrões de comportamento, procedimentos, políticas, legistações... burocracia. Entendam, jovens padawans: a burocracia algumas vezes é necessária.
Um lugar ótimo de se ver isso é na Auto Escola e no curso de formação de condutores (CFC) que ensina iniciantes na direção à não fazer hagadas na via e saberem o que devem e o que não devem fazer no trânsito. Quando eu cheguei pro primeiro dia de aula, algumas pessoas falavam pelo canto da boca: “Nossa, isso aqui é inútil, 9 aulas aqui... que inferno” . Apesar da reclamação por parte de alguns, estudam placas até enjoar. Nada se assemelha ao prazer de dirigir, talvez seja por isso a dedicação dos alunos em acertar as 21 questoes da prova do Detran e não bombar. Se as pessoas se portassem assim na escola, com a família ou em qualquer outro relacionamento inter-pessoal, a história seria bem diferente. Mas é mais conveniente dirigir um carro né, Brasil? Mas isso não vem ao caso, isso é história pra contar depois.
Não estamos aqui sozinhos. Precisamos manter isso aqui (cidade) num estado aceitável, civilizado, organizado. Pra isso são criadas as leis. Eu fico puto (pra caralho) quando alguém me fala que “leis são criadas pra foder com todo mundo” , “Aqui tinha que ter anarquia”, “os FDPs que ficam no poder ficam impondo essas coisas para nós e não temos como não obedecer" (os famosos coitadinhos). Leis não são criadas do nada! Leis são criadas a partir de estudos concretos, análises com fundamentos, critérios, justificativas. É claro que tudo tem sua parte podre, algumas não funcionam. Mas nada é perfeito.
O brasileiro tem o hábito (horrível, por sinal) de reclamar. Por que reclamamos tanto? CFC é importante pois nos ensinam sobre Direção Defensiva, Primeiros Socorros e outras coisas além de Cidadania (que, há tempos, está em falta por aqui). Se tem que fazer, por que reclamar? É a lei! Se existe, tem que ser cumprida. Se todo mundo seguisse as leis de trânsito brasileiras, talvez nem fosse necessário ficar 4 horas/dia numa sala lendo artigos de leis. Falta bom senso nas pessoas. Tantas pessoas já passaram por isso e a mesma história se repete. Não só com o CFC, mas quanto as outras coisas. Parece que nunca tá bom. Arrumamos uma desculpa esfarrapada para vivermos de cara fechada, irritados. Nos irritamos com baboseiras cotidianas como perder um ônibus, esquecer as chaves em casa, celular sem bateria, enquanto mendigos passam fome e frio, crianças são exploradas pelos pais e idosos apodrecem em asilos, sem visita, sozinhos.
Se você se fecha numa bolha e pensa que só o seu mundo importa, tá na hora de rever os seus conceitos
Um lugar ótimo de se ver isso é na Auto Escola e no curso de formação de condutores (CFC) que ensina iniciantes na direção à não fazer hagadas na via e saberem o que devem e o que não devem fazer no trânsito. Quando eu cheguei pro primeiro dia de aula, algumas pessoas falavam pelo canto da boca: “Nossa, isso aqui é inútil, 9 aulas aqui... que inferno” . Apesar da reclamação por parte de alguns, estudam placas até enjoar. Nada se assemelha ao prazer de dirigir, talvez seja por isso a dedicação dos alunos em acertar as 21 questoes da prova do Detran e não bombar. Se as pessoas se portassem assim na escola, com a família ou em qualquer outro relacionamento inter-pessoal, a história seria bem diferente. Mas é mais conveniente dirigir um carro né, Brasil? Mas isso não vem ao caso, isso é história pra contar depois.
Não estamos aqui sozinhos. Precisamos manter isso aqui (cidade) num estado aceitável, civilizado, organizado. Pra isso são criadas as leis. Eu fico puto (pra caralho) quando alguém me fala que “leis são criadas pra foder com todo mundo” , “Aqui tinha que ter anarquia”, “os FDPs que ficam no poder ficam impondo essas coisas para nós e não temos como não obedecer" (os famosos coitadinhos). Leis não são criadas do nada! Leis são criadas a partir de estudos concretos, análises com fundamentos, critérios, justificativas. É claro que tudo tem sua parte podre, algumas não funcionam. Mas nada é perfeito.
O brasileiro tem o hábito (horrível, por sinal) de reclamar. Por que reclamamos tanto? CFC é importante pois nos ensinam sobre Direção Defensiva, Primeiros Socorros e outras coisas além de Cidadania (que, há tempos, está em falta por aqui). Se tem que fazer, por que reclamar? É a lei! Se existe, tem que ser cumprida. Se todo mundo seguisse as leis de trânsito brasileiras, talvez nem fosse necessário ficar 4 horas/dia numa sala lendo artigos de leis. Falta bom senso nas pessoas. Tantas pessoas já passaram por isso e a mesma história se repete. Não só com o CFC, mas quanto as outras coisas. Parece que nunca tá bom. Arrumamos uma desculpa esfarrapada para vivermos de cara fechada, irritados. Nos irritamos com baboseiras cotidianas como perder um ônibus, esquecer as chaves em casa, celular sem bateria, enquanto mendigos passam fome e frio, crianças são exploradas pelos pais e idosos apodrecem em asilos, sem visita, sozinhos.
Se você se fecha numa bolha e pensa que só o seu mundo importa, tá na hora de rever os seus conceitos
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